segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

lenço palestino keffiyeh ou shemagh




Entre as falsas propagandas da chamada globalização, eufemismo para imperialismo, está o intercambio cultural. Como se o Mundo estivesse aberto à diversidade, o consumo se tornou a representação máxima da liberdade capitalista e a moda o símbolo da democrática inclusão social de objetos insignificantes. Mas na realidade o consumo aprisiona, a moda esvazia e os dois alienam.

Comemos no McDonalds, vamos na Disney World e tomamos Coca Cola como se fosse natural. Consumimos mecanicamente tendências frenéticas sem significados, simbologias e valores históricos sem questionar: Por que desejo isso? O que eles representam? A cultura imatura norte-americana é intocável, mas o kaffieh símbolo milenar da cultura árabe e representante da Resistência Palestina, pode ser banalizado sem nenhum pudor. O que deixo pra vocês é, se alguém perguntar se você sabe o significado do lenço [palestino] diga: “Sei é um artigo fashion!” e se a pessoa insistir em perguntar, diga que gosta é de moda e não de história.1 Sem perceber, usamos despretensiosamente, e sentimos no direito de fazer isso, o símbolo nacional de um povo, desrespeitando sua cultura e financiando o esfacelamento histórico do seu significado.

Na propaganda da Dunkin’ Donuts, a modelo usava um lenço que lembrava o keffiyeh e tinha como pano de fundo um lindo parque florido. A imagem foi suficiente para suscitar inúmeros protestos pela internet. Os bloggeiros acusaram a empresa de “estimular o terrorismo” ao mostrar uma roupa semelhante à de supostos assassinos islâmicos.

Os autores da crítica, porém, esqueceram de mencionar – ou não sabiam – que o keffiyeh é uma peça tradicional da cultura árabe. Feita de algodão e lã, a escarpe pode ser vista em praticamente todos os países da região que têm um clima árido: além de proteger da exposição do sol, ela evita que as rajadas de areia entrem nos olhos ou na boca.

O temor entre os americanos parece beirar o auge do Macarthismo: basta ver uma roupa palestina que já acham que existe alguma propaganda subliminar a favor dos homens-bomba. A pressão foi tamanha que a Dunkin’ Donuts desistiu de veicular o anúncio! 2

A estratégia sionista de limpeza étnica invadiu a mídia. A problemática não foi gerada por desconhecimento histórico, mas por uma tática ideológica de transformar a Resistência Palestina em terrorismo. Taxar o heróico povo árabe de assassinos islâmicos é permitido? E ninguém questiona. Discriminar culturas, ofender nações e incitar o ódio com interpretações maliciosas é permitido? E ninguém questiona. Já não basta as prisões e assassinatos dos “terroristas com cara de árabe”? E ninguém questiona. Tome cuidado ao andar pela rua com kaffieh, você pode ser confundindo com um homem-bomba, pois ninguém questiona.

Não sou Palestina ao contrário do que possa parecer, mas defendo a libertação dos povos oprimidos, incluindo sua independência cultural. Apesar de toda polêmica envolta no lenço, é um artigo exótico, extremamente confortável em noitadas de frio, que dão um toque de sofisticação e classe. E se o judeu Alexandre Herchcovitch e o Papa Bento XVI usam porque nós que não temos nada a ver com o conflito Palestinos X Judeus não podemos usar.1 Do sistema tenho ódio, pelos indivíduos sinto tristeza. Se as pessoas vestissem a causa palestina como vestem o kaffieh a realidade seria outra. Mas a morbidez imperialista consegue destruir a solidariedade coletiva com sua moda alienante.

Nada é por acaso. No final dos anos 80 o kaffieh virou moda no Estados Unidos e na Europa, principalmente nos países latinos como Espanha, Itália e França.1 Em 1982, houve os massacres históricos com grande repercussão midiática e mundial, de Sabra e Chatila. E agorasi, o lenço retorna, se popularizando entre os fashionistas de plantão e a galera mais descolada devido ao seu uso por celebridades e hipsters.1 A partir de dezembro de 2008 o genocídio sionista retorna aos noticiários internacionais, provocando grandes mobilizações pró-palestina. Apropriadíssimo para o momento, a causa Palestina vira tendência e seu símbolo de resistência é prostituído nas vitrines.

A realidade Palestina entorpece. Gaza depois dos bombardeios não inspira novos cenários? Crianças, jovens e velhos mutilados, torturados e assassinados não inspiram coleções originais? As atrocidades sofridas pelo povo palestino não merece um espaço na passarela? É fashion vender sem escrúpulo a desgraça alheia? Nesse desfile de horror onde tudo é permitido, só duas coisas não viram moda: solidariedade e liberdade.

Keffiyeh, kaffyeh ou yashmagh ou simplesmente lenço palestino.

O assunto proibido.

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